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terça-feira, 19 de novembro de 2019

A nossa dimensão não é a vida, nem é a morte



Foi por estar a ouvir esta música que levei a minha primeira cacetada da PIDE.

Outros tempos, dirão. Pois foram, mas embora alguns se façam de esquecidos (ou sejam só ignorantes) e acreditem ou não, já foi proibido ouvir o LP "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" de José Mário Branco.

Nunca o conheci JMB pessoalmente mas cedo comecei a ouvi-lo entre amigos. Servia-nos de inspiração.

Descansa meu caro José Mário Branco e se por aí encontrares a Natália dá-lhe um abraço meu.

"Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte"

Poema de Natália Correia (1957)
Álbum de José Mário Branco "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1971)

LNT
#BarbeariaSrLuis
[0.036/2019]

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A uns pedaços de merda

BritesPoderia ter também por título: A uns pedaços de asno convencidos que são gente só porque somos mansos, nos encolhemos e não os corremos a pontapé.

Não transcrevo Ferreira Fernandes porque penso que quem quiser ler a sua carta aberta de hoje (no DN) deve seguir o link e carimbar comentários, partilhar o texto e fazer o diabo a sete para explicar aos excelentíssimos troikos, aos Coelhos, aos Portas, aos Silvas (lembram-se da frase usada (não insultem os mercados) pelo nosso ilustre Mais Alto Economista Aposentado da Nação quando apoiou a entrada da cavalaria internacional?) que os ratinhos brancos afinal estão bem da audição e a causa de terem deixado de correr foi por os terem amputado. Sem patas, inviabilizaram-nos a corrida.

O que realmente é estranho é que, mesmo depois de tudo isto, o Primeiro-Ministro insista na receita e continue a afirmar que o caminho até agora seguido é para continuar embora já seja reconhecido como mau pelos nossos credores do FMI e pelo seu primeiro mentor nacional (Gaspar) na carta de mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa com que se retratou e retirou.

Este comportamento dará uma vez mais razão à profecia?:
"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"
Natália Correia
LNT
[0.304/2013]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Parabéns, excelência

Paulo PortasCom um dia de atraso não quero deixar de enviar uma saudação especial ao nosso irrevogável e atarefadíssimo Vice-primeiro-ministro, excelência, pela superação do quinquagésimo primeiro aniversário do seu nascimento.

É uma saudação fraterna e sincera pois sei quão difícil é andar por estes entas e ainda ter de apanhar puxões de orelhas de quem não faz a mínima ideia que as orelhas não servem para ser puxadas mas sim para se lhes cochichar.

No fundo, fundo mesmo, é uma massagem ao meu próprio ego porque nunca tinha tido a oportunidade de saudar e felicitar, nem mesmo na minha qualidade de antigo aluno do colégio onde os dois estudámos, alguém tão importante como Vexa, excelentíssimo Vice-primeiro-ministro.

Já agora, evocando Natália que hoje faria mais uns tantos entas que Vossa excelência, e aproveitando-me dos atributos de língua que ela tinha e que nunca conseguirei igualar, deixo-lhe o seu sentimento trágico da vida:
Não há revolta no homem / que se revolta calçado.
O que nele se revolta / é apenas um bocado
que dentro fica agarrado / à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente / e parte em filosofia
é porventura a semente / do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido / sem descobrir o sentido / do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe / na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte / que nos mata devagar.

E só depois de informado / só depois de esclarecido / rebelde nu e deitado / ironia de saber / o que só então se sabe / e não se pode contar.
LNT
[0.296/2013]